Este texto é uma analise do filme “1492 - A CONQUISTA DO PARAÍSO”. Nele será levantada questões como o contexto da obra, os cuidados ao analisá-la, e certos aspectos positivos e outro negativos. Além disso, argumentarei que há um ponto de vista nesta obra, que não é uma critica a isso, pois a isenção é impossíveis àquilo que é feito por humanos.
Primeiro, antes de analisar o filme, é necessário observar o contexto em que a obra é feita. O filme, assim como qualquer obra de arte, não é isenta, quer transmitir uma mensagem e é carregada da visão de mundo dos produtores. Em verdade, muitas vezes, um livro, pintura ou filme que se propõe a falar do passado fala mais de sua própria época do que desde passado em si, por isso é necessário esse cuidado prévio ao estudar história por meio da arte, até porque à arte é também necessário encantar o publico, e não somente mostrar como os eventos históricos aconteceram. Enfim, vamos à analise.
O filme, “1492 - A CONQUISTA DO PARAÍSO”, produzido em 1992, é uma comemoração aos 500 anos da viagem de Colombo à América. Dirigido por Ridley Scott, narra a “descoberta” e exploração do novo mundo pelo navegador genovês Cristóvão Colombo, que é bem representado por Gérard Depardieu, e mostra também como foi o primeiro contato entre o europeu e os nativos americanos. O filme é, em geral, muito bom, na opinião deste que lhe fala, e apesar das ressalvas, ilustra bem o contato do velho com o novo mundo.
Logo no começo, o filme já mostra qual é a intenção da produção: “Há quinhentos anos a Espanha era uma nação controlada pelo medo e pela superstição, governada pela coroa e por uma feroz inquisição que perseguia os homens que se atrevessem a sonhar. Um homem desafiou este poder. Guiado por sua percepção do destino, ele atravessou o mar das trevas em busca honra, ouro, e da grande glória de Deus.”. Isso demonstra muito mais como as pessoas do séc. XX viam o séc. XV do que este em si: a ideia do renascimento da razão que se opunha ao obscurantismo das instituições medievais, que foi bastante questionada por Le Goff. Essas ideias são bastante equivocadas, pois o que de fato acontecia era uma “negociação” das ideias antigas com as instituições medievais, que é bem demonstrado no debate dele na universidade de Salamanca, no qual ele é prontamente ouvido, porém questionado.
Agora, acerca do personagem principal do filme, Colombo. O autor Todorov e o diretor Scott parecem concordar a respeito desse curioso e confuso personagem. No filme, dá a impressão de que o Colombo tem a cabeça nas nuvens, e apesar de suas virtudes, como a coragem, por exemplo, demonstra uma inabilidade política e administrativa ímpar. Ele falha em conseguir apoio na corte espanhola, e consegue mais inimigos do que aliados na nobreza. Sua péssima visão de como as coisas de fato se passam levam a contradições, que também é demonstrado por Todorov, de que os nativos ora são como os seres humanos antes do pecado original, e ora são bárbaros completamente desprovidos de humanidade.
Além disso, o filme deixa bem explicito a influência de Marco Polo sobre Colombo. Na verdade, Colombo e diversos outros navegadores buscavam o que liam em marco polo. Colombo, porém, parece bem decepcionado por não achar aquilo que leu.
Marco polo é um símbolo forte do que se passava no imaginário europeu como um todo na época, não somente do dos navegadores. A busca de um paraíso terrestre era um forte objetivo e também havia forte o espírito aventureiro. Porém o filme quer demonstrar dois tipos de europeu: os sonhadores, que estão em busca do conhecimento, de novas terras, de um novo mundo, e o ganancioso ignorante, que é mais amante do dinheiro e do poder antes de qualquer coisa. Como já foi dito acima, essa não é uma obra isenta, e deseja mostrar uma dualidade: um novo europeu surgindo, semente da modernidade, e que rompe com a velha ordem obscura. Isso pode ser legítimo para um filme, que goza de liberdade poética, mas para um historiador é um pecado mortal. Mesmo que seja verdade que as sementes da modernidade estejam começando a serem plantadas naquela época, são todas aquelas pessoas “filhas de seu tempo”, como diria o antigo proverbio árabe. Mas, mesmo com essas ressalvas, o filme apresenta bem como eram as relações sociais naquela época.
Por último, porém não menos importante, será falado de como os nativos são apresentados. Será falado pouco porque o diretor não os tinha por principal foco. Em geral, os nativos são pouco protagonistas dos acontecimentos e são mais reativos às ações europeias do que tomam a iniciativa. Pouco ouvimos as opiniões deles, pois pouco falam no filme. O filme ainda tenta mostrar que há nativos que ficaram interessados em conhecer a cultura alienígena, que não foi recíproco, pois, segundo o filme, a princípio nem interesse tiveram os europeus de aprender a língua dos nativos.
Em suma, o filme cumpre sua finalidade, que é demonstrar de forma artística como aconteceram as navegações e o primeiro encontro do europeu com o nativo americano. Porém, por se tratar de uma obra comemorativa, de “aniversário” de 500 anos deste encontro, a obra tem que ser apreciada com cuidado, principalmente pelos aspirantes a ser historiador. O autor foi feliz em mostrar como o imaginário europeu, mas não mostrou bem os nativos, e nem tinha como fazê-lo, pois faltam fontes primarias dos nativos americanos, e uma das principais são as cartas de Colombo, que, como bem mostra o filme, nem aprendeu a língua deles.
Referências bibliográficas:
1492 A conquista do paraíso - Diretor: Ridley Scott, Roteiro: Roselyne Bosch (1992)
TODOROV, Tzvetan. A conquista da América: a questão do outro. São Paulo: Martins Fontes
1492-A CONQUISTA DO PARAÍSO, Adoro cinema
Disponível em:<https://www.passeiweb.com/estudos/livros/casa_grande_e_senzala>
Acesso em: 03/05/2020
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